quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Princípio de Saudade

Há uma música que não me sai do ouvido, hoje. Na verdade não se chama hoje, ontem é a sua graça, porque é passado, porque pertence àquelas memórias que estão entaladas no fundo do roupeiro desarrumado que é hoje o meu pensamento, que ontem era a realidade e que hoje não faz sentido mas continua a deixar saudade. O sorriso aparece mesmo assim, porque a ironia deixou o seu odor no ar. Para quem não queira mais se explicar está bem lixado que as explicações vieram pra ficar e vão ficar em voga para a eternidade em terra minha. É um destino, ou melhor, um karma com o qual casei antes mesmo de me conhecer; e agora que penso nisso, volta o sorriso enviesado que ainda não me conheço.
Mas a música que boia em mim, que me toma os ouvidos e a visão e me carrega para outra dimensão é a mesma que me encantou durante um ano e uns miseros dias, não é coisa boa de ser ouvida, e por isso mesmo não quero voltar a ouvi-la, mas se não a voltar a ouvir continuarei a tê-la na cabeça, então qual a solução? Volta o sorriso a estes lábios secos que fazer beicinho e não triunfam. Que vou eu fazer se a mim me parece que a minha própria mente me pregou uma partida para nunca me deixar ter certezas de nada e viver constantemente a namorar o Sr. Impasse que se contradiz a cada duas palavras?

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Princípio de Liberdade

Soube tão bem, foi a delícia pela qual eu suplicava há tanto tempo... De um gosto tão doce e tão feliz que ainda consigo senti-lo na boca, quente, hilariante, determinado, delicado. O divinal acordar que poderia ser considerado blasfemea se aos ouvidos dos deuses chegasse. Pois que chegue, deixá-los ouvir, que a mim não me interessa nada mais. Mas ao sentir o vento que percorre as costas num galope contente e destemido, com os lábios ainda sujos de aventuras, tão fresco, revigurante. Nada poderia superar tal sentimento. Quais paixões, quais amores, quais desamores infames e mesquinhos? Não quero mais beber dessa água que em tempos me envenenou, quero agora tomar do cálice da sabedoria que me acordou hoje bem cedo pra me sussurrar ao ouvido a mais encantadora melodia, a de ser livre, aquele que me leva a todos os lugares onde sempre quis estar mas nunca quis ir, a liberdade que me sacei-a inteiramente, que me reconforta, que me nunca me deixa mas nunca está presente para me olhar, aquele pedaço de céu que foi moldado até adquirir a forma celeste de ser chamado de liberdade, aquele grito que corre na noite, que arrepia as paredes já frias das casas, o grito que aconchega em sonhos, que é escuro e quente.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Princípio de Coerência

A coerência que vem, a coerência que fica, como a onda que não retorna à maré. É o véu que cai sobre o meu olhar, que me deixa apreciar tudo à volta sem que tenha de tomar uma opinião imediata. Ela é a mulher maravilhosa com que todos os meus sentidos sonham à noite. É perfeita, de uma beleza infinita e arrepiante. Ela veste-se de imparcialidade e nunca perde o ponto nem a língua. Sabe sempre o que dizer, sabe sempre o que fazer. Quem me dera ser como ela, simplesmente dar-me ao que vier porque haveria de saber sempre o que responder, que copos encher, que medidas tirar. Ah quem me dera vestir-me em coerência, tomar banhos de coerência, beber coerência, calçar os sapatos dela, ser quem ela é, numa condição de equilíbrio permanente e coeso, eterno, tão cândido e celestial...     

A minha amiga Consciência...

Acabar aquilo que nunca começou é um conceito com o qual é difícil de viver. Não por ter acabado, mas por nem sequer ter começado e do nada já se achar no direito de acabar! Patético... Ou talvez não. Num destes dias, talvez tenha sido no meu dia a mais, tive uma conversa bastante séria com a minha Consciência, fomos só nós as duas, numa saída de senhoras que prometia um grande desfecho. Caminhámos durante alguns minutos e depois sentá-mo-nos numa tal de relva que nos apareceu por baixo dos pés. Descontraidamente, tirámos um cigarro cada uma e deitá-mo-nos na tal coisa verde e fresca. Eu contei-lhe tudo o que se passava afinal de contas estava com a minha amiga mais íntima, e nunca tive segredos para com ela, por isso contei-lhe tudo. Contei-lhe a história de um tal rapaz que me veio cortejar. E como ele cortejava, tão... naturalmente e com tal à vontade que parecia uma cena familiar, algo recomfortante assim, do nada, maravilhoso, um véu quente e leve que abraçava numa noite de Outono. Mas que afinal nem ele sabia o que queria e julgava-se tão confuso que não me queria enganar, lá se foi o cortejo e o resto da procissão pela rua a baixo. E nessa noite de Outono em que lá se foi o véu do conforto, tanto que eu penei pela sua ausência...
No dia seguinte trouxe-me a madrugada a mensagem, o meu cavalheiro julgava-se louco por dizer tais coisas, tão descabidas. Dizia que afinal de contas eram tudo patetices, e que espera ansiosamente por mim. Pois bem, eu que também nunca fui de me querer ver caida nas manhas de uma tal coisa chamada romance, (que dizem que vem do estrangeiro e se torna na desgraça de uma mulher). Nesse momento apereceu-me à janela o meu amigo orgulho e tomou-me a voz sem me deixar pensar: "Pois se assim é, enganaste-me uma vez não me hás de enganar uma segunda." e disse-lhe que não, que pensasse melhor, que se queria esquecer amores passados não contasse comigo.
E lá fui eu, fui para longe, fiquei onde estava e durante dois dias não sai do mesmo sítio. Ao terceiro dia, fui acordada pela aquela minha tal amiga íntima, aquela com quem falo sempre, que me dá sempre razão, mesmo quando me ralha por ser fria e rude e orgulhosa. 
Oh minha amiga Consciência, que fui eu fazer?    

Dia a Mais

No meu calendário o dia de hoje tem mais vinte e quatro horas do que na verdade deveria ter. Mas não é mau que assim seja, se calhar o tempo parou, e eu vivi mais um dia que o resto do mundo, se calhar foi isso, o universo decidiu presentiar-me e disse: "Hoje é o dia em que vai parar tudo e vais ter o mundo inteiro para ti, só para ti, porque o resto da humanidade vai ficar a dormir."
Agora que penso nisso não me recordo do meu dia a mais, terá sido tão bom que não me foi permitido mantê-lo na memória? Ou será que foi mau, um ultrage contra a humanidade, será que matei todos os que me fizeram mal no passado e no presente e no tempo ausente que eu vivia, que clamavam pela vingança que nunca fiz? Se assim foi então a minha loucura terá tomado caminhos que eu pensava desconhecidos, caminhos escondidos pelas ramagens da razão. Pelos vistos matei toda a vegetação e deixem a loucura existir e reinar. O que nos vale sempre é a rede por baixo do arame, a rede mãe, o poder de ser «hipotético». Poder que permite criar toda uma mentira baseada na verdade, e revelar os instintos que nos assolam, e a qualquer momento poder dizer: "hipoteticamente falando claro.." O discurso é de facto um mar de prazeres desconhecidos que nos permite sempre sair de nós mesmos, nadar até as mais distantes praias para viver o nosso dia a mais.  

domingo, 23 de maio de 2010

Princípio de Erro

Vem, atravessa esta ponte sem mim, pelo caminho lembra tudo o que já tiveste, tudo que perdeste porque te vendeste à vaidade acrática, toda a frustração que atravessa também contigo como uma sombra no chão que te ultrapassa. O domínio do surreal há-de receber-te bem, mas melhor recebido serás ainda nos braços da luxúria e da desilusão. Larga a minha mão porque já aqui não estou. Vai entregar-te à noite, às "damas" que estão longe e sempre tão presentes como fantasmas, senhoras que tanto gabaste e tanto mais te deram que de ti nada pediram em volta. Um dia, hás de te rir do tanto valor que lhes destes e do todo que perdeste por sua culpa.
Não é triste reconhecer a verdade, mais triste é permanecer na mentira e chamar-lhe felicidade com um sorriso ingenuamente estúpido, mais triste é viver no conformismo putrefacto que te consome a razão a cada dia para te deixar mais perto da decadência. Agora, tu és em mim a personificação do erro, que não quero esquecer mas que inconscientemente há-de modelar tudo o que vier posteriormente.
Eu não choro, quem chora são os meus olhos, que, embebidos na revelação de se econtrarem livres e de pairarem leves sobre o mundo outra vez, derramam rios de alegria para saciar a sede aos que neles só veêm sofrimento, mentes pobres, mentes secas, mentes fracas. 
A memória persiste, porque é essa a sua tarefa, e os meus erros trago-os bem presentes comigo, e é bom que assim seja, que sempre que te vislumbrar quer em sonhos, quer em carne, recordarei a raiva, a dor, escondias pelas sensatez que me elevou ao estatuto superiormente sábio ao teu. Porque quereria eu esquecer-me de quem melhor me ensinou a sofrer?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Princípio de Imperativo

Não pecarás mais, nem voltarás a cair nas redes da gaveta da esperança, aquela cujo fundo é falso onde sempre cais e de onde nunca voltas num pedaço só. Muito menos voltarás a ouvir as difamações dos românticos por excelência que proclamam o mundo etéreo. Os que não cedem às massas para se vender ao desejo fútil de estar à margem. Agora vai, levanta-te e não regresses duas vezes ao mesmo pensamento, porque tudo o que ouviste até hoje foi o fruto de uma relação infame entre a ilusão e a traição. Quanto do que viste conseguiste sentir? E quanto do que sentes hoje consegues de facto ver? Se o paradoxo comandar a vida podes afirmar-te então como o rei tão amado que já ninguém lembra com clareza ao olhar o nevoeiro da manhã. Agora vai, levanta-te, pelo caminho, não confies em tudo o que vês mas não deixes que a dúvida se apodere de ti de tal forma que esta acabe por te consumir as ideias e já nem de ti mesmo tenhas certeza.